3.1.14

tiro a identidade da carteira
e agora
quem
sou?

noutras terras, noutras línguas
sou étranger
je suis estranho
foreign extraterrestre
colonizado, colonizador

quem sou, para quem sou

sou em inglês espanhol francês e português
nice to meet you, monsieur
por favor
muchas gracias

números, ainda sou
vários e muitos e com letras no meio
sou uma marca d'água que me confirma
também sou chiados digitais impressos em papel

passarão luzes vermelhas e verdes
carimbos e datas
assinaturas e vistos
pois precisam garantir que eu seja
eu mesmo

e passarão filas e
sensores e
balanças e
alfândegas e
esteiras e
cabines e

passarão dias e meses e
frios, carnavais, provas
refeições e séries de tv

roupas sujas serão lavadas
descargas serão acionadas
noites serão dormidas

serei ainda
eu
o mesmo?

16.12.13

Acho que eu sou uma daquelas pessoas que a subjetividade foi profundamente afetada por essa integração android nossa de cada dia: qual o meu nome na agenda do celular? Publicou foto comigo no facebook? Fala comigo as coisas mais ordinárias da vida no whatsapp?

É idiota, mas acho que essas coisas dizem muito. Ou pra mim dizem bastante, sei lá.

enfim

9.12.13

Nostalgia do presente é sinal de maturidade?

Saber que as coisas acabam, terminam, vêm, vão, e a vontade de viver o agora como nunca mais: isso é bom?

Eu sempre gostei do infinito. A ideia de "pra sempre" já foi tão certa pra mim quanto os segundos que passam. Mas é bem isso mesmo: os segundos passam, passarão, passarinho etc.

Passamos eu e você, vamos passar eu e ele e, tão breve quanto as memórias, pá. Acabou.

Sério, isso é tão triste...

Por que eu sei que em um segundo já terminei o curso de ciências sociais e vou começar a surtar com o mestrado e doutorado e aí quando eu vi to batendo na porta do desemprego e miséria?

Eu me prendo muito ao passado talvez por isso: sempre achei que fosse pra sempre. Aí, óbvio, machuco os outros porque sou um egoísta fodido, mas continuo como? Egoísta & fodido.

Pois bem, passarinho o caralho. To mais é pra, sei lá, minhoca, baleia em putrefação, coisas do tipo. Talvez guardar tudo isso seja o pior

Pra quem eu escrevo isso? eu ele você nós tudo isso vai fazer algum sentido em 10 anos? 20 anos? Uma eternidade?

Nossa, e essa coisa louca de tentar descrever a realidade e sentimentos? Tava pensando nisso outro dia. Difícil pra caralho (e não nos ensinam isso no colégio) (na faculdade até tentam, mas é tão falho que nem dá pra levar a sério)

Daí tentei falar do roxo-melancola da almofada ou da meia-luz da sala sem sucesso

mais fácil ser pedante que ser poeta
Dizem que o amor é essa coisa quando você se vê no outro de um modo tão dialético que quando você percebe se projeta a ponto de acharem que são um mas aí uma hora a ficha meio que cai dizendo "ei, que porra é essa" e aí é como se o reflexo do espelho se movesse e virasse as costas e aí você não tem mais referencial pra pentear o cabelo e fica muito mal mesmo porque você realmente gosta do seu cabelo e pensa que tá saindo na rua com ele todo bagunçado. Daí em algum momento você precisa tomar uma atitude. Uns raspam logo a cabeleira e saem por aí carecas - eu tenho orelhas de abano e aprendi a ajeitar o cabelo com as mãos, sem precisar de espelho nenhum - mas aí eu sempre fico pensando em como será que tá minha imagem que se foi há muito. Eu poderia cortar logo o cabelo de outro jeito, mas sei que ficaria muito escroto e meu cabelo é muito liso, fica sempre assim como tá agora, não adianta mesmo, acredita em mim. Pois bem, acho que é mais ou menos isso o amor - a gente sempre tem os good e bad hair days
Porque, sabe, ficar atualizando o facebook assim, a tarde toda, a noite toda, não deve ser, digamos, saudável. Nada de novo acontece mas você continua aí, olhando as atualizações alheias, julgando as fotos da festa e lamentando amores e flores que se foram.

É, mas coisa melhor eu não teria pra fazer. Os livros há muito nada me dizem e as canções parecem que perderam a harmonia depois do que se foi. Atualizar as intimidades dos outros me afasta de mim, me limita aos outros: me defino e mendigo, a todo o tempo, curtidas vazias.

E se você lavasse a louça da noite anterior? Vai passar as roupas que acumulam e clamam pela ordem.

Que ordem? Já não sei o que é andar com a barra da calça alinhada ou os sapatos amarrados. Tropeço na rua e me levanto sem ajuda, pra que sujeitar-me a tudo isso?

Não sei, não sei de nada mesmo. Quer dizer, e isso tudo aqui, serve de alguma coisa?

Pelo menos distrai.

É, talvez