3.3.17

Não sou feito de carnaval

Pós quarta-feira de cinzas, dois mil e dezessete.

Não sou feito de carnaval.

Nada contra a festa, na realidade eu até gosto bastante, mas minha personalidade não se adapta bem aos festejos de uma cidade inteira em festa pública.

Sou de prazos e regularidades, padrões, sequências; a noite de sexta é, portanto, o choque natural do pedro-sociólogo acostumado às massas trabalhadoras e cansadas, silentes no transporte público, com a noite da explosão, dos estilhaços de realidades, da brincadeira de ser quem se quer.

Digo, racionalmente eu entendo, eu sei que vou presenciar tudo aquilo; meu espírito, no entanto, demora a adaptar-se - geralmente acontece lá pelo terceiro dia - e enquanto isso viro o chato do rolê, a cara emburrada no bloco.

Passei um glitter na cara e, preocupado com minha aparência, só depois notei que bastava o desejo de brilhar para justificar o que quer que estivesse na minha testa.

Esse ano fiquei na cama assistindo animes e séries quatro dias consecutivos. Achei que fosse sair algum dia, talvez um convite irrecusável, mas este não veio.

Minha ressaca da folia é readaptar-me à rotina das burocracias habituais

12.8.16

eu já não sei quem eu sou

eu já não sei quem eu sou

eu já não sei meus desejos e ânsias
prendo ao máximo a respiração e mesmo o instinto primitivo dos pulmões plenos de ar
parece mais um tipo de consciência involuntária ao viver
como que melhor não tá
mas pior sempre fica?

não que eu queira me matar, não
realmente não o desejo queria apenas
saber

o que mantém esse corpo junto
átomos atados corrente de nós
impulso

o que me move?
o que me basta?

eu queria saber de onde vem a vontade de escrever
e de espirrar

sobre como consigo ler letras e cantar em pensamento

vejo as árvores e suas folhas
ouço pássaros

enfim,

o que me move?
o que me basta?

tão vazio de algo estou que nem ao menos perguntas sensatas e pensamentos uniformes consigo produzir,
algo de realmente estranho porque minha mente mimetiza memórias de outrora sempre todas
racionais racionais
uma razão de todo burra porque nunca sentimental, uma razão que jamais tomou sentimentalismos como parâmetros de cognição que já desprezou afetos
porque acreditava em algum lógica interna ao indivíduo.

há tanto tempo não escrevo...

8.6.16

escrever ainda salva

talvez eu esteja deprimido talvez eu
esteja precisando de ajuda? penso
sem muita certeza, porque veja
veja: eu não sei bem meu caminho

mas eu nunca soube mesmo e é essa a questão. eu nunca soube bem o meu caminho e sempre lidei bem com isso, sempre segui fui seguindo até chegar

onde? eu cheguei aqui - "cheguei" - e permaneço, ou fico? eu fico aqui ou vou, digo, talvez vá, talvez fique,

eu sou geminiano ou deprimido?

eu sou indeciso ou covarde?

eu sinto o que penso
penso no que faço
faço o que quero
eu sinto no que ajo?

eu estou deprimido ou
será que eu gosto de preencher-me com dúvidas,
de nutrir-me com projetos de ilusões de descaminhos será
que gosto disso, desse desabor do sonhar?

estou deprimido ou será que
só sou criativo quando melancólico,
engraçado quando constrangido
sóbrio quando chapado

estou deprimido
ou consciente de meus vícios
de minhas doideras
de meus artifícios

refletindo
sobre
a existência...

estou deprimido, será?

eu realmente considero a possibilidade, sabe,
tem dias que eu to tão triste mas TÃO TRISTE
que nem chego a sentir dor.
nem chega a cair lágrima
apesar da angústia do
tempo: espero passar....

talvez eu precise de terapia, sim,
mas não agora não
queria que meu pai, que minha mãe,
fossem quem pagassem minha analista...
parece que preciso que consertem os nossos erros...
e algumas roupas se lavam em casa, afinal.

talvez eu não lave passe
cozinhe trabalhe o
suficiente talvez será
que se eu trabalho louça
suja ou trabalho

será que fazendo algo algo
será contracheque será
que

será que isso distrai minha tristeza
ou traz novos semblantes ao sofrer?

será que eu sofro...
ou sequer o sei
saberia dizer...



talvez a depressão seja esse eterno questionar...
a depressão, será, será que eu
posso estar 
ficando 
deprimido?...



eu não sei,



será que preciso de ajuda ou

escrever
ainda
salva.



6.5.16

mudança imposta
retrocesso à realidade
resgatada de início
forte: choque

tempo o mesmo
tempo o mesmo

gritos e sussurros e liberdade posta sob as grades do olhar
cortante

do respeito autoritário

o tempo é o mesmo mas sou outro, penso
acredito realmente que algo vá mudar que eu
vá mudar, creio, espero,
que mude, mude
mude

o ritmo do passo parece o mesmo e tudo o que posso é respirar calma e profundamente

sem esquecer-me quem sou

rumo ao inerte

contemplo o vazio

da vida que criei:

ser nada mais do mesmo

10.4.16

como colocar em palavras aquilo que regojiza
boca aflora pelo
reto, cinco

propaganda, propaganda

que decepção traidor mudou de lado

pra mim é o princípe bruxo descobrimos seu truque a súplica qq custava morrer de fome só pra fazer música

agora é a madalena arrependida com conservantes

que que custava morrer
de fome

só pra fazer música




1.3.16

abismo corpo-mente

às vezes eu sinto como se não tivesse um propósito na vida.
tenho preguiça de acordar porque meus sonhos estão distantes do mais exagerado otimismo
e fico mais empolgado com a perspectiva de uma boa série do que promissores versos de petulância rimada

faço curadoria de conteúdos condenáveis
internet afora discutindo
sem razão
diante das menores
reações em redes
sociais

torço por personagens duvisosas e apego-me a notícias desnecessárias
Pichação em fachada de churrascaria em São José gera polêmica na web
escrevo frases desconexas forjando um sentido de limitada realidade
Mensagem pró vegetarianismo 'coma legume' foi pichada na quinta (25).

em nada me apetece participar
por nada desejo torcer
Vandalismo causou revolta na web

tanto faz a maior das justiças
não me importa qualquer desgraça
e levantou discussão sobre alimentação.

eu só quero quero quero
pensar no pensado só
quero

gritar feito surdo
umas mentirosas
suprarealidades

eu grito brado fujo reajo
esquivo-me do passado
esperando encontrar futuro
em consonância

com passado presente fu
tudo

não passa de mentira
tudo

é ilusão saborosa
felicidade

escrevo isso com um computador altamente tecnológico
em pulso

(poderia uma realidade sem sentido apetecer-me
ao que quer que seja?)

a realidade é conveniente,
(tranquei já uma personagem nesse destino)
a realidade me é conveniente portanto
tudo me escurece portanto

escrevo escrevo escrevo

talvez minhas ideias sejam apenas doenças camufladas de poder
talvez o que eu pense seja apenas um vômito desgostoso de si
que precisa mover-se ao externo para não sofrer para não
desperdiçar o corpo que parasita

é isso, minha alma é como isto:
um parasita arranhando a carne
desejoso de paixão e queda
sugando para si toda e qualquer
fagulha de orgasmo,
lampejo de alegria

um parasita deslocando a causa
causando abrupta
desfantasia

um véu de filó a desgarrar-se sob a brisa do tempo

escute,

há um milhão de pássaros cantando a sinfonia da verdade
em quem você há
de acreditar?

21.2.16

"eu não quero me abrir com você neste momento"

desconstrução é processo doloroso

envolve você envolve
a mim a realidade envolve
explosão de vontade
fragmento de agora
em outros outras outros

sentimentos
questões
conflitos
saberes

sabe?

como naquele ponto inicial
impossível no tempo
indivisível no espaço
súbito revoar de asas
de conversão
de possibilidades,

veja:

uma nuvem de pássaros explode
em todas as direções possíveis
certo?

cada qual escolhe seu caminho cada
asa fragmenta destina seu destino,
claro

mas veja veja::

sempre há aquele momento no qual a concentração
de asas, de raios, de luz, no qual a concentração
de possível por metro quadrado extrapola toda
e qualquer expectativa do provável, extrapola
expectativa de realidade e dentro do qual
qualquer espaço é espaço qualquer
espaço
veja,

a luta pela possibilidade de voar
nesse espaço de muita asa pouco

tempo

nesse momento
nesse breve tímido
relâmpago momento

átomo de tempo

é ali o palco da mais real batalha

é nesse tempo
(tempo
suspenso)

que a decisão torna-se ação

momentos quebram barreiras

momentos criam novos limites

momentos assim
tornam o atual
realmente o que é

(lutarei pelo direito de lutar pelo direito de lutar o que quero que seja real)